Se eu vivesse na antiguidade, hoje seria um sábio ancião, daqueles que discutiam os assuntos mais profundos nas praças públicas, contando aos jovens moços as heróicas histórias que passei na guerra. Mas sabe como é, história de velho sempre tem um descrédito.
Se eu vivesse na idade média, estaria na terceira idade, já me preparando para o fim da vida, talvez com alguma doença séria me consumindo, dores, muitas dores. Talvez chegasse até a refletir “quando me cessarem as dores, também me cessará a vida”.
Se eu vivesse na revolução industrial, não prestaria mais para o trabalho, estaria bem acabadinho, graças aos esforços de 16 ou 18 horas de trabalho diário para ganhar um salário mínimo, sem direito trabalhista ou aposentadoria. Talvez a morte nem fosse um mau negócio.
Se eu vivesse nos anos 60, não estaria me sentindo bem, já pensando em deixar minha vida boêmia ao lado de grandes nomes, gente rebelde e contestadora que, caso sobreviva, virará um empresário ou algum burocrata, estaria pensando em comprar uma churrasqueira pra me lembrar, aos finais de semana, dos anos revolucionários. Faria uma canção aos amigos que se foram e tomaria uma para esquecer um amor de verão.
Olha que engraçado, no século XXI, acabei de sair da adolescência, recém formado, recém empregado, penso em sair da casa da família, ainda to juntando dinheiro pra casar e planejo os próximos 70 anos com muita empolgação.
Realmente, ainda não chegaram os maus dias, os anos nos quais direi “neles não encontro contentamento”.

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