GAFE EXECUTIVA – O TIRO CERTEIRO EM SUA REPUTAÇÃO

March 23rd, 2011 → 10:16 am @ admin // Nenhum comentário

O primeiro grau da sabedoria é saber calar; o segundo, saber falar pouco e moderar-se no discurso; o terceiro é saber falar muito sem falar mal e sem falar demais.”
Jean-Jacques Courtine e Claudine Haroche
L’Arte De Se Taire, 1996

“I can’t forget I’m chairman. […] I have to be careful about what I say and how I say things.”
Lodwrick Cook
Ex-chairman da Atlantic Richfield Company e atual vice-chairman do Pacific Capital Group


Todo profissional, não importa a posição que ocupe na sociedade, já cometeu uma ou mais gafes ao longo de sua carreira. Todos, sem exceção, têm se tornado vítimas de suas próprias gafes.

No ambiente de trabalho ou fora dele, nenhum profissional está totalmente imune a elas. Daí a necessidade de permanecer sempre alerta e atento ao que diz ou faz. Estes são os seus únicos e verdadeiros antídotos.

O grande sábio judeu, Salomão, rei de Israel, diz: “O que guarda a sua boca e a sua língua, guarda das angústias a sua alma; até o tolo quando se cala será reputado por sábio; Os sábios escondem a sabedoria; mas a boca do tolo é uma destruição; Até a criança se dará a conhecer pelas suas ações.” (Provérbios 22.23, 10.14 e 20.11)

Conselhos semelhantes foram proferidos também pelo apóstolo da cristandade, Paulo, também conhecido como Saulo de Tarso: “Andai com sabedoria para com os que estão de fora… A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais responder a cada um.” (Carta aos Colossenses 4.5-6).

O mesmo pregador, em carta dirigida ao seu discípulo Tito, escreveu: “Em tudo te dá por exemplo de boas ações e obras.” (Carta a Tito 2.7)

A sociedade moderna tem com freqüência sido surpreendida por gafes praticadas por profissionais de inegável competência executiva, inquestionável liderança empresarial e robusto preparo acadêmico. Alguns deles fizeram seus mestrados em Administração de Empresas nas melhores e mais renomadas universidades do mundo – Harvard, Wharton, Cambridge, Oxford, Stanford –, entre tantas outras.

Vejamos alguns desses exemplos:

Bernard Hees, carioca, 41 anos de idade, com currículo invejável e atualmente presidente mundial da cadeia de lanchonetes Burger King, recém-adquirida pelo fundo 3G Capital Management.

Em palestra proferida na Universidade de Chicago, ao relembrar seus dias de estudante na Universidade de Warwick, Grã Bretanha, declarou: “A comida é terrível e as mulheres não são muito atraentes. Aqui em Chicago, a comida é boa e vocês são conhecidos por suas mulheres bonitas.”

Não demorou muito tempo para que sua declaração ganhasse destaque nas páginas dos principais jornais do mundo.

As reações foram também imediatas:

Charli Fritzner, ativista da Universidade de Chicago, declarou: “Se ele vê as mulheres como uma potencial distração no meio acadêmico, eu me pergunto como eles as vê no local de trabalho.”

O jornal britânico “Daily Telegraph” tratou de ironizar a declaração do executivo ao afirmar que “uma maneira pela a qual as mulheres britânicas podem se tornar mais atraentes talvez seja tentando evitar a visita à rede de fast food do Sr. Hees.”

A imprensa britânica foi mais além em sua crítica mordaz. O jornal, “The Guardian”, abriu uma enquete em seu site na internet, onde perguntava: “Devemos nos importar com o que o chefe do Burger King diz?”.

Bernard Hees quebrou uma regra básica do convívio internacional que diz: “O executivo global deve adotar os hábitos e costumes do país em que vive sem dar mostras de repugnância ou expressar desprezo por esse ou aquele outro país.”

Paulo Zotollo, paulista de origem, carreira bem-sucedida na área de marketing, ex-presidente da Philips e, anteriormente da Nivea, em controvertida entrevista concedida ao jornal Valor Econômico, declarou: “Se o Piauí deixar de existir, ninguém vai ficar chateado.”

A reação a sua inconcebível e impensada afirmativa foi instantânea. O então senador pelo Piauí, Heráclito Fortes (DEM), classificou-a como “preconceituosa.” O senador Mão Santa em sessão no Senado foi mais contundente em suas críticas: “O próprio nome dele é “só tolo”, marcado pelo destino. Ó tolo, ignorante, imbecil e cansado, a primeira capital planejada do país foi Teresina.”

Posteriormente, Paulo Zotollo foi declarado “persona non grata” nos Estados do Ceará e do Piauí.

Zotollo feriu com sua impensada e preconceituosa declaração a todos os piauienses espalhados por esse Brasil afora.  Por outro lado, ele demonstrou a mais completa ignorância sobre a história do Estado do Piauí. E, além do mais, uma precariedade inquestionável em “expediente executivo”. Isto é, discurso aberto, civilizado, agradável, inspirador, maneiras fáceis e graciosas, que são de grande serventia na criação de uma impressão favorável sobre as pessoas e os negócios.

Luiz Inácio Lula da Silva, natural de Pernambuco, ex-presidente do Brasil, no período de 2003-2010.

Acredito que nenhum outro presidente em toda a historia do Brasil cometeu tantas gafes no exercício da Presidência da República como ele.

Eis alguns exemplos:

Em declaração à imprensa após almoço de trabalho sobre biocombustível com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse: “Nós já conversamos  muito sobre a rodada de Doha ao longo desses últimos meses e nós estamos andando com muita solidez para encontrar a possibilidade, como o chamado ponto G, de fazer acordo.” Bush, simplesmente não entendeu suas palavras.

Em visita à Namíbia, em 7 de novembro de 2003, falando sobre a sua capital se saiu com essa “pérola” da diplomacia lulista: “Quem chega em Windhoek não parece que está em um país africano. Poucas cidades do mundo são tão limpas, tão bonitas arquitetonicamente e têm um povo tão extraordinário como tem essa terra.”

Outra gafe por ele praticada aconteceu em 26 de março de 2009. Ao lado do primeiro-ministro britânico Gordon Brown, afirmou que a culpa pela crise econômica iniciada no ano de 2008 era dos brancos de olhos azuis: “É uma crise causada, fomentada, por comportamentos irracionais de gente branca, de olhos azuis, que antes da crise parecia que sabia tudo e que agora demonstra não saber nada.”

O presidente Lula feriu de morte alguns princípios clássicos da diplomacia internacional:

–   O estadista deve ter consciência, de uma vez por todas, que não tem autoridade para exigir que uma nação inteira conforme-se ao seu modo “de ser”.

–   A justiça e a modéstia devem governar todos os seus atos; deve ser respeitoso para com os governantes; cortes e honesto com todos para usar a observação do grande secretário de gabinete de Luis XIV, François de Callières, 1645-1717.

Caro leitor, como afirmei  na abertura desse texto, todos nós cometemos gafes. Algumas graves, outras nem tanto. De qualquer maneira, dependendo do nível de sua gravidade, elas geram conseqüências desastrosas:

  • Acarretam prejuízos de milhões de dólares às empresas. Perda de participação no mercado de seus produtos. Gastos com campanhas publicitárias milionárias para minimizarem as gafes cometidas. Substituição dos executivos envolvidos, etc.
  • Colocam em cheque sua liderança, tornando-a alvo fácil de críticas mordazes, principalmente da mídia. A gafe do presidente da Burger King é um bom exemplo. Os jornais ingleses e as agências de notícias destacaram, em suas matérias que “a sua indicação para a posição de presidente mundial da rede causou surpresa desde o início pela falta de experiência do executivo no segmento alimentício.”
  • Maculam a reputação da empresa e do próprio executivo. A queda de John Brown, ex-chief executive officer da British Petroleum, ilustra esse ponto.  A sua reputação foi terrivelmente abalada em maio de 2007, quando ele pediu demissão depois de tentar enganar um tribunal durante uma ação judicial para impedir um jornal de publicar detalhes pessoais revelados por um ex-namorado.
  • Estimulam o cinismo e a descrença no ambiente interno das organizações. É fácil compreender que os subordinados comumente olham para seus lideres com admiração e respeito. Entretanto, no momento em que eles são descobertos cometendo gafes, toda essa veneração rui como um castelo construído sobre areias movediças. Nas palavras da consultora Benton, “They put you on a pedestal and alternately treat you like an all-knowing God.” Entretanto, quando os colaboradores descobrem que seus líderes têm os seus pés de barro, como no sonho do rei Nabucodonosor, interpretado pelo jovem Daniel, todo o seu endeusamento desmorona.
  • Descarrilam carreiras valiosas construídas ao longo de vários anos de trabalho. O próprio Paulo Zotollo teve a sua carreira interrompida na Philips e atualmente desenvolve carreira empresarial. Ele dirige o seu próprio negócio em Miami – distribuição de água mineral.  Mas ele não é o único exemplo no Brasil. Existem muitos “Paulos Zotollos” por esse país afora. É só pesquisar e logo se descobrirá que eles também perderam seus empregos, não avançaram em suas carreiras, foram preteridos em suas promoções, não ganharam aumentos salariais como previam e hoje vivem reclamando que o mundo não lhes deu uma oportunidade. Ah, se esses profissionais tivessem se lembrado da sabedoria chinesa que ensina: “Há três coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra proferida e a oportunidade perdida.”

Em ambiente de negócios de extrema concorrência e de comunicações instantâneas, não importa se o executivo está em busca de nova posição ou  proferindo uma conferência para universitários; concedendo uma entrevista à imprensa ou simplesmente participando de um simples evento social; liderando uma reunião interna ou participando de um Comitê de uma Câmara de Comércio; conversando em sala VIP de aeroporto com um colega ou viajando em poltrona de primeira classe,  ele será julgado pela maneira como fala (suas palavras) e age (sua conduta).

Aqui, vale transcrever as palavras da consultora norte-americana, Debra Benton: “In the world of business, it is not what you do but how you do it. With one small gesture you can impress, insult, appear cultured and educated, or simply become a social cast.”

E, em outra ocasião, ela alertou: “At the top, you have more freedom to make decisions, to make mistakes, to initiate, to be human, and to use humor. But you have less freedom to say or do whatever comes to mind. Even casual comments carry weight. […] Consequently, when you get to the top, you’ll have to use your smarts and choose your words carefully, constantly considering the effect they may have on others.”

Caro leitor, a reflexão sobre esse assunto deve merecer toda sua atenção. Afinal, você pode atirar na lata do lixo uma trajetória de inegável sucesso por causa de uma gafe.

Nesse sentido, coloco para sua consideração recomendações que julgo oportunas e que lhe protegerão em toda e qualquer situação, não importa o lugar, ou com quem conversa, trabalha e conviva:

Aprenda a manter a sua boca fechada. Como afirmou o abade Dinouart, “O silencio é prudente quando se sabe calar oportunamente, conforme o tempo e o lugar em que se está no mundo e conforme a consideração que se deve ter para com pessoas com quem se é obrigado a tratar e viver.”

Valorize a diversidade cultural dos povos. Não há uma nação ou um povo superior a outro. Todos nós somos iguais em nossa natureza humana. Daí porque não podemos desdenhar de outras culturas por mais que sejam distintas da nossa. A beleza do universo é a sua heterogeneidade. Você já pensou o quanto seria monótona  a vida humana se todos fossem iguais em tudo? “Os homens de mente pequena,” instruiu François de Callières, “devem contentar-se com o emprego em seu próprio país, onde seus enganos podem ser prontamente reparados, já que os erros cometidos no exterior são, com excessiva freqüência, irreversíveis.”

Nunca aceite um assignment em país estrangeiro se você não está totalmente preparado. Tenho assistido inúmeros profissionais em processos de outplacement simplesmente porque eles não navegaram com competência em paises estrangeiros. Portanto, estude tudo o que puder antes de viajar para trabalhar no exterior – história, geografia, economia, arte, literatura, música, religião dominante, sistema político e judiciário, arquitetura, gastronomia, costumes dominantes, etiqueta social e empresarial, etc.

Lembre-se que pelo simples fato de cultivar o hábito de viajar ao exterior, isso não o capacita a viver e lá trabalhar. Por outro lado, nenhuma empresa deveria enviar um colaborador mal preparado em missão ao exterior. O calibre dos homens de seu país de origem será avaliado de acordo com esse indivíduo.

Cuidado com as suas brincadeiras e piadas, mesmo que bem intencionadas. Elas podem ser mal interpretadas pelos seus superiores, pares, subordinados, fornecedores e clientes. Aqui valem as palavras de Alex Mandl, executive chairman da Gemalto, eleito pela revista Forbes como um dos mais poderosos executivos da América: “It’s surprising how carefully I have to watch how I Joke. Saying something like Seattle is nice, maybe I’ll move the headquarters there, gets everybody worried.” Ou, ainda, o comentário feito por Thomas Bickett, ex-presidente e COO da Witco Corporation, “You don’t have the freedom you thought you’d have. You can’t say things in jest anymore.”

Recentemente, assessorei um profissional oriundo de grande empresa multinacional em processo de executive coaching que me confidenciou: “Perdi muitas oportunidades (4) na minha empresa nos últimos anos pela minha maneira despojada e brincalhona. Queimei a minha imagem e ainda hoje luto para mudá-la. A alta administração considera que não sei me comportar perante os vários públicos da organização.”

Avalie o grau de destruição que produziu com as suas palavras e comportamentos impensados. A sua humildade nesse instante é de fundamental importância. Dela dependerá a correção de suas palavras e de seu  destino futuro. Confesso que apreciei tremendamente a humildade de Bernardo Hees, presidente mundial do Burger Kings, ao pedir desculpas pela brincadeira que fez por ocasião de sua palestra: “O Sr. Hees pede desculpas se seu comentário tiver ofendido alguém. A intenção era contar uma história bem-humorada, para se aproximar da platéia.”

O executivo com seu gesto de humildade demonstra elevado grau de responsabilidade e grandeza de alma. Mas, a despeito de sua atitude madura é bom manter em mente o seguinte princípio: “O homem nunca é tão dono de si mesmo quanto no silêncio: fora dele, parece derramar-se, por assim dizer, para fora de si e dissipar-se pelo discurso; de modo que ele pertence menos a si mesmo do que aos outros.”

Mantenha seu currículo e  membros de  sua rede de relacionamento sempre atualizados. Afinal, muitas vezes, é imprevisível dizer o que vai acontecer depois que as gafes percorrem o mundo com a colaboração da rede mundial de computadores, a internet. Portanto, esteja sempre bem preparado para deixar a organização.

Estude tudo o que estiver ao seu alcance sobre etiqueta social e empresarial. Isso significa dizer: adquira e leia os melhores livros sobre o assunto; pesquise na internet artigos específicos sobre etiqueta; faça cursos com profissionais de reputação ilibada e comprovada experiência para “lidar” com questões de natureza complexas; procure a ajuda de um consultor, mentor, professor ou qualquer outro tipo de profissional que você aprendeu a respeitá-lo pelos seus gestos diplomáticos; observe o comportamento de profissionais que se destacam em sua empresa pela sua conduta exemplar, etc.

Infelizmente, muitos de nossos jovens chegam ao mercado de trabalho  totalmente desprovidos de conhecimentos básicos de civilidade humana. Eles não têm a menor noção sobre como devem se comportar em ambiente de trabalho complexo, competitivo, veloz e totalmente distinto de seu ambiente familiar. Portanto,  não é à toa que a maioria fracassa total ou parcialmente em sua carreira.

Cultive a sua sensibilidade humana. Bill Dana, ex-Chairman, Daniels Communication, questionado sobre o que qualifica um profissional para uma alta posição numa empresa, disse: “Sensitivity to other people’s reactions, appreciation of human values, creative imagination, relialibility, physical ruggedness, financial guts, and the ability to be right 95% of the time.”

Caro leitor, espero que  minhas recomendações contribuam para a deflagração da discussão de assunto tão importante para o sucesso de uma carreira, a prosperidade dos negócios e o crescimento auto-sustentável do país.

Lembre-se do conselho transmitido por Baltasar Gracian, “Seja grandioso o comportamento visando a superioridade. Quem é grande por posição não deve ser pequeno no proceder. […] Procedamos normalmente com fidalga generalidade, o que faz parte da elegância.”

 

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