Um dos salmos mais conhecidos de toda a Bíblia é esse 139 (digo de toda a Bíblia porque há salmos espalhados em diversos cantos do Antigo Testamento). Entendo que a razão para todo esse interesse é o ensinamento mais claro que encontramos sobre a onisciência e onipotência de Deus. Tudo bem, essas doutrinas estão ali sim, mas comecei a fazer uma leitura um pouco diferente e percebi que havia mais quem salmo doutrinário ali, acabei percebendo um homem que foi encontrado pela graça Deus.
Parece-me (mesmo correndo o risco de estar redondamente enganado) que o salmo está dividido em 5 estrofes. Não sou um conhecedor da poesia hebraica, mas sou tentado a dividi-lo assim; talvez por uma questão didática.
Não sei, pedagogo tem manias.
Essas estrofes estariam em paralelos, a primeira com a terceira, a segunda com a quarta e a quinta é o desfecho (ou nesse caso específico, a cura, que é o encontro com a graça de Deus)
A primeira estrofe vai dos versículos 1 ao 6. Onde Davi apresenta o seu “problema”, que é o fato de Deus observa-lo em todo momento, isso parece angustiar muito Davi.
A segunda vai do 7 até o 12, quando o salmista começa a pensar como poderia fugir da sua angústia.
Do 13 ao 18, me parece que Davi, não vendo uma fuga possível, começa a fazer uma racionalização, algo próximo da morbidez, típica dos teólogos reformados – e estou falando isso por experiência própria, mas não gostaria de deixar nenhum reformado doente com minha doenças.
Essa terceira estrofe é a constatação da primeira: antes falou de modo geral, aqui de modo pessoal.
A quarta estrofe é ainda mais dramática, já que ele, começando pela angústia, não vê libertar-se dela, pensa em ser a mão de justiça divina na Terra, num estado de euforia muito perigoso.
Por fim, quando Davi se aquieta, nos versículos 22 ao 24 ele é, finalmente, encontrado pela graça, onde sua alma angustiada encontra repouso.
Davi, não se sabe o porquê, mas se vê em um problema muito sério (para ele): Deus o observa o tempo todo. E não é que Deus olha as suas atitudes como se fosse um Big Brother (do George Orwell), é muito além disso, Deus vê até aquilo que ele ainda não falou.
Na angústia davídica, Deus passa a ser uma testemunha constante de tudo aquilo que há de mais feio dentro dele. Não é apenas isso, Deus lhe parece como o juiz e o carrasco constante.
É por isso que diz que tal conhecimento é maravilhoso demais. Entendo que não esteja expressando ser algo belo de assistir; ao contrário, lhe é algo pesado e enfadonho, uma coisa difícil demais de suportar. Davi não declara sua impotência diante do Deus onipotente, ele declara sua angústia diante daquele que tudo vê.
Por isso a necessidade da fuga, ele precisa se ausentar daquele que tudo vê. Como não pode matar Deus (como o fizeram os ateus) ele propõe o ir até o céu.
O mesmo céu que intentaram os homens de Babel, ou que gostariam os idealistas: um céu sem deus algum. Ou quem sabe as profundezas da morte, num heroico suicídio. Nem no céu, nem no inferno, ou mesmo nos lugares mais distantes da terra; é impossível esconder-se daquele que tudo vê. Mesmo o trancar-se no quarto, ou num buraco escuro qualquer (há momentos em que alguns quartos de dormir se confundem com uma caverna escura, a diferença é o urso que nelas habita) não é suficiente.
O homem contemporâneo também propõe as suas fugas, novos salmistas escreveriam “se tomar todas as caixas de calmante, até nesse estado me darás lucidez” ou “se me alienar por meio do erotismo, mesmo assim tu me darás consciência”. Enfim, infinitas fugas, todas ineficazes.
Se não é possível fugir, Davi tenta racionalizar a sua angústia. Ele não é um teólogo ou um filosofo, é rei, guerreiro, pastor de ovelhas e poeta. Quão bela e significativa é sua racionalização, mas ainda é uma tentativa de cura para sua alma.
O problema persiste, não estamos apenas vendo uma descrição do criador de todo o universo, onipotente, Davi descreve o seu criador pessoal.
Não há um relato das obras grandiosas de Deus (por isso acho que não há nenhum ensino sobre a onipotência aqui, mas isso fica para uma outra discussão, essa já está longa demais), do Deus que criou Davi e somente eles estão nessa história. É como se ele dissesse “realmente, Deus tem o direito de me observar, afinal, sou feitura sua, criado para viver para a sua glória”.
Mesmo isso é pesado demais para Davi, e a conclusão sua é a mesma da primeira estrofe: “preciosos para mim”. Entendo aqui no mesmo sentido de maravilhosos: pesados demais.
O caminho daqueles que querem sair repentinamente de qualquer crise, sem trata-la e cura-la por completo (sintomas e causas) é geralmente desastroso.
Davi, parece concluir que não há cura para seu problema, sendo assim, vamos à luta. Ele propõe ser a mão de Deus contra os ímpios. Se não pode fugir de Deus, então, será um radical e extremista; se não pode com eles, junte-se a eles.
Depois de um estado de angústia e morbidez veio a euforia, todos estados ruins. No caso de Davi a euforia se dá pela não resolução de seus problemas. O ativismo tende a ter cara de cura, mas seus estragos são sempre maiores que a doença. O próximo estado de Davi seria uma angústia ainda maior que a primeira se não tivesse interrompido esse ciclo.
Até aqui Davi não faz de fato uma oração, ele faz apenas um discurso a Deus, é só a partir do versículo 23 que ele faz a oração que o salva.
Linhas atrás o salmista queria fugir de Deus, mas agora, ele diz “sonda-me e conhece o meu coração”. Ele começa na angústia e passa para um estado de fuga de Deus (quase ateísta), depois, para um estado de morbidez (quase reformado) ainda, um terceiro estado, o radicalismo (quase um ativista político da direita mais ortodoxa), tudo isso muito rapidamente, mas a angústia está diante dele ainda (e creio que nada pode resolver).
Parece haver um ápice no verso 22, com uma música frenética tocando. Sobe o tom da voz Davi, que com espada em punho, declara seu ódio mortal pelos inimigos de Deus… Aí há um pausa, um silêncio.
Cai a luz e Davi se prostra de joelhos.
Nesse momento o salmista tem a consciência do que é a graça de Deus. Graça não é aquilo que nos transforma em pessoas melhores, religiosos mais fervorosos, que nos leva a fazer melhores orações. É o Dom de Deus em nos aceitar como somos. É como se Davi visse as suas próprias iniquidades e percebesse que é Deus quem está sempre indo até Davi e que ele não pode fugir de Deus, pois esse o aceita.
Graça é, nesse salmo, o ser aceito por Deus com a feiura da alma.
O salmista já não está planejando a fuga, mas anuncia a sua rendição, na oração mais singela e bela “guia-me”. O homem que pensava em fugir, agora pede para ser guiado. Ser aceito não significa que não é necessário mudança, mas Davi reconhece não ser capaz de promover as mudanças necessárias.
Não há cura aqui, a angústia continua. A diferença é ser guiado por Deus no momento da angústia, ao invés da fuga.
Agora, Davi de joelhos, faz uma breve oração, admiti sua culpa, não com um discurso grandioso e belo, mas simples. Ele reconhece que é aceito por Deus e que seus próprios cominhos não eram de todo seguros, por isso, a petição para que Deus o conduza pelo caminho que o leve de volta para, o caminho da eternidade.

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